Mary Design e sua coleção "O Cantar dos Cantares" - Minas Trend Preview Primavera/Verão 2013.

Por | terça-feira, abril 24, 2012 Deixe um comentário
“Deliciosas, são tuas faces entre os brincos,
teu pescoço envolto em guirlandas.
Brincos de ouro mandaremos fazer para ti, 
com incrustações em prata”.
Sempre desejei fazer uma coleção sobre o amor. Algo que nos pareceu tão simples, se vestiu de imensa complexidade tamanha as facetas e máscaras do amor. Reli Romeu e Julieta, revivi tragédias gregas: Ulisses e o amor “tecido” de Penélope sempre me fisgaram...Fernando Pessoa enchia minha cabeça de perguntas sem respostas; Laços de família, da Clarice Lispector, andavam na bolsa lado a lado com anel, elo, aliança, união. Lado a lado com todo sentimento do mundo. Um vestido na parede, vestígio, traço, resto, rastro, me  lembrava que o amor também era um sentimento que figurava a presença e, ao mesmo tempo, uma ausência.

Nos jornais diários do nosso país, constatamos que maridos ainda matam mulheres. Ciúmes, traição, o não perdão. Pensei no poeta belo-horizontino que recentemente se foi, e seus amores impossíveis, como o do peixe e do pássaro. Por outro lado, procurava me distrair com adivinhas medievais, líricas e satíricas, e ria desse amor tão antigo e tão igual ao sentir contemporâneo. Haikais minúsculos dos poetas marginas brasileiros condensavam todo amor em mínimas palavras. Sempre a poesia me sugerindo caminhos, do amor e seus afetos.
Mas foi o poema bíblico, Cântico dos Cânticos, que elegi para falar do amor. Redescobrir o texto, de outra forma, chegar a ele e perceber outros caminhos, outros sentidos, me encheu de alegria. Ora o lia descobrindo cheiros, ora as flores. O poema é perfumado e todo imagético. Muitas vezes saia do texto imaginando cenas, pintando verdadeiros quadros. Descobri, através da leitura de uma semióloga francesa, que se trata da primeira enunciação feminina bíblica - pela primeira vez, a voz de uma mulher aparece separada da do homem.

O drama de Sulamita e Salomão é nosso “caso de amor” que envolverá toda a coleção. Esse amor bíblico, simples, fugidio, amor espera, que nunca se concretiza, amor desencontro, canto perfumado de amor sobre a errância é nosso desejo de falarda sede e da ânsia de amor, deles e da nossa que nunca se esgota! E, como Sulamita, ficamos doentes de amor.

De que maneira, de literalmente erótico, pôde esse texto passar a ser considerado canônico, sagrado? Quando o lemos percebemos que ele é libertário, não tem um Deus rancoroso, não é amor lei. E, sim, um amor erótico sem ser vulgar, elegante e encantado, dentro de um livro sagrado. Um sagrado dentro do outro. Todo amor é sagrado.

Evocando a influência religiosa indiana do texto, logo uma divindade sensual e mística, tecemos as bijus desta estação. O canto tem também influência grega, egípcia, israelita. Fala de pedrarias, safiras, topázios e alabastro. Incorporamos, então, na coleção, todos os vestígios sensoriais do texto de Salomão, sejam oriundos dos cenários ou das vestes.

E chegamos ao final do trabalho com uma imensa certeza: a de que amor não se explica, a de que amor é um paradoxo, a de que amor, esse velho e conhecido amor tem faltado, anda escasso, está em estado de carência, precisa ser despertado.

                                                        “Eu estava dormindo, desperto: ouço meu querido bater”!
Fonte: Salamandra Comunicação.